Rev. Marcos Amaral fala sobre seus planos para o Sínodo e sua participação na Comissão Contra a Intolerência Religiosa
Entrevista concedida a Comissão de Comunicação e Marketing do Sínodo da Guanabara (CCMSGB) em agosto de 2011
Rev. Marcos Antonio Gomes Amaral é ministro presbiteriano com mais de 20 anos de ministério, pastor-efetivo da Igreja Presbiteriana de Jacarepaguá há 16 anos e presidente do JPA. Recentemente assumiu a presidência do Sínodo da Guanabara. É mestre em teologia e pós--graduado em filosofia contemporânea, psicólogo e escritor. Casado com Claudia e pai de Silas, 25 e Jonatas 23, ambos jovens atuantes em seu ministério e comunidade. Atuou como professor nas faculdades: IBMR e BENNET, e exerceu coordenação em pós-tratamento em dependência química na 1ª Clinica Pública do Rio de Janeiro. Exerceu capelania no Hospital Universitário Gafree Guinle, tratamento aos portadores do HIV.
CCMSGB - Como foi sua trajetória ministerial?
Rev. Marcos Amaral - Sou filho de uma família sincrética, mãe admiradora da umbanda e pai católico, devoto de Santo Expedito e das almas. Morei com meu avô materno que era cético. A Igreja Presbiteriana de Colégio foi construída ao lado de minha casa, e, como sempre adorei cantar e dançar, a EBD me atraiu, pois aquelas músicas infantis me hipnotizavam. Era o Verbo que soprava no meu coração e processualmente me levava para caminhos por Ele definidos.
Entrei para o Seminário Presbiteriano do Rio de Janeiro em 1984, sou da 1ª turma originária no Méier. Formei-me em 12/1989 e fui licenciado pelo Presbitério Madureira em 01/1990, mesmo ano em que fui ordenado, sendo enviado como pastor efetivo designado para Igreja Presbiteriana de Bento Ribeiro, de onde saí em 12/1995, para então, começar meu pastorado na Igreja de Jacarepaguá em 01/1996 onde estou até hoje.
Graduei em Psicologia em 1994, e concluí o mestrado em Teologia pela PUC/RJ em 1998. Licenciei-me em Filosofia Contemporânea, também pela PUC/RJ, em 2000. Lecionei no IBMR e BENNET por alguns anos. Atuei também por alguns anos como Capelão Hospitalar no Hospital Universitário Gaffré Guinle. Também trabalhei como psicólogo e depois como coordenador, durante alguns anos, do pós-tratamento em dependência Química da 1ª Clinica Pública do Rio de Janeiro. Atuei como debatedor da Rádio Melodia durante mais de 12 anos.
CCMSGB - E a sua ascensão a Presidência do Sínodo, como você está vendo isso?
Rev. Marcos Amaral - Nunca fui afeito a questão jurídico-política da igreja, sempre me esquivei desse lugar, sou ministro há 20 anos e nunca aceitei, apesar de eleito várias vezes, ser deputado ao Supremo Concilio, de forma que esse lugar para mim não só é uma grande surpresa, bem como uma experiência singular.
CCMSGB - Quais são os seus planos para o Sínodo da Guanabara?
Rev. Marcos Amaral - Como qualquer pastor, tenho o espírito inquieto. Minha contribuição para o Sínodo, acima de qualquer iniciativa, é provocar discussões, fomentos que possibilitem dar visibilidade a temas relevantes e de interesse não só espiritual, mas também histórico, social. Vou trabalhar sério pelo alinhamento do campo do Sínodo, por uma organização e agrupamento das igrejas mais eficaz, na busca do bom respeito e obediência ao nosso principio federativo. Acho que isso será impulsionador para o crescimento do presbiterianismo no campo do Sínodo da Guanabara. Tenho a humilde ambição de realizar provocações, pois, no dizer do Prof. Humberto Maturana, estas apontam inevitavelmente para o crescimento e importantes descobertas.
CCMSGB - Fale sobre sua experiência em participar do programa Sagrado da Rede Globo e Canal Futura?
Rev. Marcos Amaral - Foi uma grande surpresa, fui escolhido em razão da projeção que a comissão contra a intolerância religiosa me concedeu. Como disse antes, nunca obtive destaque representativo em minha igreja, mas por outras vias, que não internas, acabei alcançando relativa evidencia e destaque.
CCMSGB - Muitos apreendem que o movimento contra a intolerância religiosa e o diálogo inter-religioso é a mesma coisa. Há diferenças? O que você poderia nos dizer a respeito disso?
Rev. Marcos Amaral - Inicialmente agradeço enormemente ao Sínodo por disponibilizar esse espaço para falar de algo tão significativo para mim. Só para se ter uma idéia de como acabei sofrendo discriminação e reducionismo em minha própria igreja, certa vez compareci em um evento presbiteriano, e ao passar por uma roda de pastores conhecidos, eles começaram a fazer sons de atabaque e caricaturavam como se estivessem com uma entidade espiritual, como imaginamos ser na “macumba”.
As religiões de matriz africana não são uma estranheza total para mim, pois como relatei anteriormente a “macumba” nunca foi algo estranho à minha história. Tive uma infância muito pobre, muito pobre mesmo e, médico de pobre, era a mãe de santo. Inúmeras vezes senti de perto as baforadas do cachimbo da Vovó Nascimenta, rs, rs, rs. Portanto, reconheço a total impossibilidade de dialogo religioso com as religiões de matriz africana, não há um ponto se quer de tangenciamento entre nós e eles, diria que é absolutamente impossível estabelecer qualquer associação.
Logo, o que é preciso ficar claro é que a CCIR – Comissão Contra a Intolerância Religiosa não é uma iniciativa de diálogo inter-religioso, mas de defesa da cidadania e, nesse sentido, estar na comissão é exercer plenamente meu papel profético, pois da mesma forma que um dia clamamos por respeito a nosso culto e expressão religiosa, defendo que os cidadãos: cristãos, umbandistas, budistas, islâmicos, candomblecistas, judeus, católicos, etc., tenham o seu direito a culto de forma livre e igualitária respeitado, ainda que discorde fulcral e frontalmente dessa ou daquela expressão. Mas, é meu papel, como ministro de Jesus Cristo exercer e lutar pelo direito de todos, e não só do meu.
CCMSGB - Qual é a sua participação efetiva no movimento contra a intolerância religiosa?
Rev. Marcos Amaral - Como membro da comissão, participo de palestra, representações, sendo inclusive recebido pelo presidente da república, excelentíssimo Sr. Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, o ponto alto é a marcha contra toda sorte e tipo de intolerância religiosa, que se dá na praia de Copacabana , todo mês de setembro. Lamento por ser o único pastor presente na Marcha, seria uma linda demonstração para a sociedade que nós presbiterianos marcássemos posição e concordássemos, não com as religiões de matriz africana, mas com o direito do umbandista escolher sua religião e ser respeitado por isso.
CCMSGB - Como é estar ao lado de líderes religiosos com "teologias" totalmente distintas da nossa?
Rev. Marcos Amaral - Uma experiência fantástica e desafiadora. Tenho sido chamado a estar em lugares que nunca imaginei que pudesse entrar, não só locais semelhantes aos nossos santuários, como ser recebido pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, lideres judeus nas sinagogas, mas também entrar em santuários religiosos para realizar discussões e reuniões em torno do tema da intolerância.
CCMSGB - O que este tema, da intolerância religiosa, apresenta relacionado à Palavra de Deus?
Rev. Marcos Amaral - Acho que se há um tema presente cortando toda bíblia sagrada a todo tempo, é a intolerância, pois não foi outra coisa que vitimou o povo de Deus ao longo de vários cativeiros, dentro os quais o mais penoso que foi a escravidão egípcia.
O cristianismo nasce em meio a uma região geográfica absolutamente intolerante, e Jesus Cristo tenta quebrar e proporcionar um caminho de amor em resposta às convicções que tinham base em compreensões de profunda intolerância.
Certos fariseus e toda sua plêiade de preconceitos e perseguições aos diferentes. O sofrimento do apostolo Paulo para ser aceito, encarando toda sorte de perseguição dos judaizantes, até mesmo vinda dos apóstolos de Jerusalém. O preconceito manifesto por Pedro, registrado em Gálatas, ao rejeitar os helênicos com quem estivera como igual, mas diante da chegada da turma de Jerusalém, flagrantemente os rejeita, como se fossem eles leprosos. Tiago, irmão do Senhor, que definitivamente não aceita, reprova e denuncia Pedro ao presbitério por este ter simplesmente entrado na casa de um centurião, ou seja, alguém diferente, o que bastava para revelar condenação, o que está registrado em Atos. O xingamento que o filho do carpinteiro recebe pelo fato de ser genial e absolutamente inteligente, ao ser chamado de bastardo, sendo ferido em sua dignidade e no que há de mais singelo que é a pureza e imagem de nossa mãe, pois com isso insinuavam que Maria havia tido filho com outro homem.
Portanto, se alguém grita por ajuda, ao ser alvo de intolerância e preconceito, nós os cristãos somos os primeiros que devemos nos apresentar, pois esse tema está em nosso DNA.
CCMSGB - O que nossas igrejas e o presbiterianismo podem ganhar ao participar deste movimento?
Rev. Marcos Amaral -
Ah! Sua indagação me enleva, me faz sonhar! Sonho um dia poder ver de fato uma igreja protestante, uma igreja sonhada por nossos pais John Wycliff , John Huss, Jerônimo Savanarola, John Knox, Lutero, Calvino.
Ao vermos a sociedade levantar a bandeira contra a intolerância, ao vermos a ONU mandar emissários ao Brasil e receber relatório concluindo, após investigação sistemática que, das treze maiores capitais brasileiras pesquisadas, todas apresentam sinais de intolerância religiosa, diante do que, conclui o relatório entregue a ONU: É o Brasil é um país intolerante e os evangélicos estão na base desse grave problema social, político e ético; concluímos que nós presbiterianos somos intolerantes quando não levantamos a nossa voz para dizer à sociedade brasileira que não concordamos com a intolerância e que nosso olhar cristão não se alinha com tais práticas.
Nesse momento a ONU conclui que 2/3 dos conflitos no mundo, têm em sua base a intolerância religiosa. O que ganharia a IPB? Seria reconhecida como única igreja brasileira, e verdadeiramente protestante, capaz de transparecer alinhamento ético com tema de tal relevância, e isso não é pouca coisa.
CCMSGB - O que a Igreja Presbiteriana do Brasil e os presbitérios jurisdicionados ao Sínodo da Guanabara podem esperar do novo presidente do Sínodo da Guanabara? Qual seria sua mensagem a todas as igrejas do Sínodo?
Rev. Marcos Amaral - Onde eu estaria não fosse o meu Senhor ter se revelado a mim? Amo a igreja de Jesus Cristo, e sei que a igreja presbiteriana é uma autêntica igreja de Jesus Cristo, portanto, amo a igreja presbiteriana. Essa é uma mensagem clara que desejo que todos a ouçam: amo a IPB.
Como num processo de crescimento adolescente o Sínodo da Guanabara está crescendo, tornando-se independente, experimentando amadurecimento e, naturalmente, esse é um processo doloroso, mas muito desafiador.
Espero poder colaborar com esse bom momento que se descortina diante de nós. O Rio de Janeiro durante muitos anos foi capitaneado pelo histórico Sínodo do Rio de Janeiro, mas sabemos e compreendemos que o nosso município suporta absolutamente estrutura para abrigar ainda, ao menos, mais dois ou três sínodos, o que a meu ver, não só daria mais consistência jurídica ao RJ diante da igreja nacional, bem como ocasionaria a IPB/RJ um caráter atual, moderno e contemporâneo que se baseia em valores, tais como: agilidade, eficiência e similaridade.